Exposição itinerante gratuita discute território, mineração e povos indígenas

“A Carne de Gaia”, da artista Beá Meira, tem participação de mulheres indígenas e passará pelo interior do estado de São Paulo a partir de abril

A exposição “A Carne de Gaia”, idealizada pela artista visual e arquiteta Beá Meira, terá, entre os meses de abril e setembro, uma nova temporada gratuita em três cidades do interior do estado de São Paulo: Santos, Ribeirão Preto e Marília. Os trabalhos expostos abrangem diversas técnicas – desde pintura  e gravura até tecelagem – e lançam um olhar sobre as relações com a natureza, a exploração de territórios e a mineração na Amazônia. Além disso, duas obras de três mulheres indígenas – Claudia Baré, Larissa Ye’pa Tukano e Rayane Barbosa Kaingang – também compõem a exposição, consolidando-a como um trabalho coletivo e plural, com diferentes perspectivas sobre essas temáticas.

A ideia da exposição surgiu após Beá Meira realizar uma residência artística no Rio Negro, no Amazonas, em 2023. A artista já vinha desenvolvendo uma série de gravuras sobre a mineração na Amazônia, e a experiência no Rio Negro a inspirou a produzir tapeçarias em que reproduziu trechos dos mapas do desmatamento da floresta, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). “Eu já vinha produzindo algumas obras, mas, quando iniciamos o projeto da exposição, comecei a trabalhar mais intensamente. Quando as ideias ganham materialidade, elas se multiplicam. Foi um processo muito abundante”, afirma Beá.

Atualmente, a exposição conta com 45 obras e traz alguns destaques. Além das tapeçarias com o mapa do desmatamento, Beá apresenta o trabalho “O corpo ativo de Gaia: Geologia e Biologia”, na qual estabelece uma relação entre esses dois campos do conhecimento. Já a obra “Atividade mineradora sobre pedra” utiliza a técnica da litografia, em que a artista reproduz imagens de mineração a partir de uma matriz de pedra calcária. Outro destaque é uma série de trabalhos sobre o mapeamento da mineração na Amazônia, criados por meio do mokulito, técnica de gravura em madeira. Segundo Beá, o conceito de Gaia, que dá nome à exposição, está relacionado à ideia de que a terra é viva e está em constante movimento e transformação. “Esse entendimento de que existe uma interação entre os seres vivos e a terra é a base deste trabalho. Cada vez que olho para a terra, vejo a própria carne da terra, a mineração como ferida, como dor. Tento experimentar essa alteridade com o mundo natural, sentir a violência da exploração como a terra sente”, reflete a artista.

Obras de mulheres indígenas ampliam o olhar sobre os temas apresentados

A ideia de convidar artistas indígenas para participar da exposição partiu da curadora Susana Oliveira Dias, com o objetivo de ampliar a capacidade de produção de conhecimento e reafirmar os conceitos apresentados nas obras. “A relevância da participação dessas artistas é, justamente, elas apresentarem outros modos de existir e outras perspectivas que não são capitalizadas. Com os povos indígenas, podemos aprender,  inclusive, a inventar outros modos de pensar, de sentir, de viver, que não são predatórios, promovendo um importante diálogo”, afirmou a curadora. 

A obra “Mulher Bioma”, de Rayane Kaingang, artista indígena e estudante de Pedagogia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é uma pintura que aborda como a violência contra as mulheres indígenas também evoca uma agressão aos saberes ancestrais, aos territórios e ao próprio conhecimento dos povos originários.  “Tenho trabalhado muito com o conceito de antropoceno e quis representar como a centralidade do ser humano no mundo impacta as comunidades indígenas. A violência contra as mulheres indígenas ameaça tudo o que elas carregam consigo”, afirma. 

Já a pintura assinada por Claudia Baré, mestranda no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, e Larissa Ye’pa Tukano, estudante de Artes Visuais na mesma universidade, reafirma a presença dos povos indígenas. A obra retrata a “cobra canoa” que, em diferentes etnias, representa a origem da humanidade. O trabalho ganhou nome de Pamuri Mahsã (na língua do povo Ye’pa Mahsã) e Mira etá uiri igará buya upé (na língua Nheengatú do Povo Baré). “O trabalho da Beá traz uma intenção que é comum à nossa, mas a partir da perspectiva de uma mulher não indígena. O convite para participar da exposição impulsiona a nossa voz”, afirma Larissa. Para Claudia, integrar a exposição é uma oportunidade de compartilhar os saberes indígenas. “O trabalho da Beá demonstra uma preocupação que também é nossa. No entanto, a responsabilidade com o meio ambiente é de todos, não apenas dos povos indígenas”, destaca.

Uma exposição viva e em movimento

“A Carne de Gaia” é considerada uma exposição viva, pois a artista tem incluído novas criações a partir das vivências nos locais por onde a mostra passa.  Uma dessas novas obras é a tapeçaria “O invisível coração Guarani“, em que Beá bordou o Aquífero Guarani, após uma estadia em Botucatu (SP). A cidade está localizada na borda do aquífero, um dos maiores do mundo. “Podemos estudar um tema, mas, quando chegamos ao local, conhecemos pessoas, interagimos e aprendemos, tudo isso inspira novas obras, que acabam se juntando à exposição”, explica Beá.

A mostra também prevê atividades paralelas, como oficinas, debates e até interações artísticas, que serão oferecidas ao público visitante. “Quando levamos a exposição para diferentes cidades, temos a oportunidade de apresentar essas temáticas e provocar discussões que, muitas vezes, não estão presentes nesses locais”, conclui a artista. A exposição já foi apresentada em Campinas, entre maio de junho de 2024 e em Botucatu, entre agosto e novembro de 2024.

“A Carne de Gaia” é realizada pelo Instituto Pavão Cultural e foi contemplado no Edital PROAC 26/2024 – Artes Visuais / Circulação de exposição. O projeto “A Carne de Gaia” é uma realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas. 

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