Escritas Ocultadas, memórias de gestos artivistas
Sônia Aparecida Fardin
Arte e Memória são duas esferas da produção de conhecimentos intrinsecamente ligadas. Em ambas, apagamentos e lacunas são práticas políticas que visam a invisibilização de sujeitos sociais dissonantes e divergentes do padrão instituído pela lógica da classe dominante; atos de poder que buscam, principalmente, deslegitimá-los da condição de produtores de conhecimentos.
O projeto Escritas Ocultadas, de autoria da artista Andrea Mendes com minha curadoria, buscou problematizar essas práticas e, principalmente, evidenciar presenças e potências historicamente apagadas, iluminando os conflitos atuais que as envolvem. Concebido pela artista, a partir de sua pesquisa sobre ações artísticas ativadoras de memórias conflituosas e incômodas, contou com duas edições.
A primeira, denominada OCUPAÇÃO ESCRITAS OCULTADAS, foi realizada em 2021 no Museu da Cidade de Campinas, instituição encarregada da preservação e difusão da história de Campinas, incluiu a doação ao museu de esculturas de adinkras, performances e intervenções na expografia.
O foco foi debater como, muitas vezes, somente os procedimentos de identificação, catalogação e exposição não dão conta de ultrapassar as barreiras ideológicas que produzem apagamentos e ocultações de culturas não hegemônicas e seus saberes, que concretamente estão presentes na materialidade de muitas peças mas não nas formas e códigos que as inscrevem e as apresentam como documento histórico. Foram cinco intervenções: Ocupação Escritas Ocultadas, Sagradas Mãos Pretas e Criação Branca, Reação Preta , Colheita em Preto e Branco, Somos o Peso Milenar da Nossa Força Ancestral.
A segunda edição, denominada OCUPAÇÃO ESCRITAS OCULTADAS – A PAISAGEM QUE NÃO PASSA foi realizada em 2024, para marcar os 250 anos de Campinas, contou com seis intervenções que problematizaram como, de forma seletiva, a memória oficial celebra a história local em monumentos e ruas da paisagem central da cidade. Foram seis ações: O legado da Princesa, Embaixo do Chão, Tem preto no Museu, Cortejo da Perseverança, CorAção e Dança da Alegria..
Em ambas edições, ao sublinhar com arte a matriz africana, reconhecendo-a como Sujeito na vida cultural, econômica, política e científica da cidade, os gestos artivistas de Andrea Mendes produziram releituras dialógicas e pautaram reflexões críticas sobre os conceitos de preservação e memória em seus atravessamentos de classe, raça e gênero, destacando as contradições presentes nos acervos e em espaços de grande circulação pública.
Por meio da ativação artística, a artista ressaltou a percepção dos conflitos, tensões e fissuras presentes nos atos de seleção, organização, exposição e celebração de memórias. Um traço comum em ambas é a escolha da artista em fazer uso das cores vermelho e dourado, para sublinhar, dialeticamente, de um lado dor, sofrimento, tristeza e opressão, e de outro, brilho, poder, alegria e iluminação ancestral.
O que se buscou foi, sob os signos da arte, indagar com que olhos desejamos ver, rever e refazer nossos acervos e a paisagem desta cidade.
Olhar é ato político, poético e ético, pode ser libertário ou seu oposto. Com o objetivo de amplificar esse debate, a presente exposição apresenta memórias das duas edições com objetos que integraram as performances e, principalmente, fotografias e audiovisuais produzidos por parceiros e colaboradores do projeto. Essas memórias visuais são resultados de olhares artísticos que se dedicaram a registar e interagir com os gestos artivistas de Andrea Mendes e com o conceito curatorial das duas edições.
Assim, fica o convite para que outros olhares se apropriem do que foram as intervenções do projeto ESCRITAS OCULTADAS e se somem ao seu propósito principal: seguir iluminando e enfrentando os conflitos que ainda persistem na memória social brasileira e, principalmente, na busca por construir coletivamente práticas culturais equânimes e emancipatórias.
Ficha técnica das Intervenções e Performances
Artista: Andrea Mendes – Curadora: Sônia Fardin
Mostra Escritas Ocultadas (2021) – Intervenções: Escritas Ocultadas, Introdução no espaço expográfico das esculturas Adinkras (de autoria de Andrea Mendes e Samuel Pérsio) e intervenções em objetos museais com tecidos vermelhos, para marcar o poder da cultura negra, bem como o sangue derramado – Realizada em 14 de Julho de 2021. Sagradas Mãos Preta – dialogando criticamente com a aquarela de autoria de José de Castro Mendes, criada em 1950 com cenas da construção da Catedral de Campinas (construída entre 1807 e 1883). A artivista recria a composição produzida por Castro Mendes para destacar os corpos pretos escravizados, cujos saberes foram fundamentais na construção de um dos símbolos de poder da aristocracia da cidade e as fotografias que representam os principais equipamentos arquitetônicos da cidade. Realizada em 21 de agosto de 2021. Criação Branca, Reação Preta – Nesta ação tenciono o debate sobre as marcas da herança racista e do colonialismo, mas também as resistências cotidianas do povo preto. Recriando no corpo de uma mulher Preta produzindo interferências em seu próprio corpo com inscrições de tinta branca, aludindo às marcas da herança racista e do colonialismo, mas também às resistências cotidianas do povo preto. Participação na performance: Ridalia Martins. Realizada em 21 de agosto de 2021. Colheita em Preto e Branco – A performance Colheita em Preto e Branco evoca gestos: fiar, confiar, desconfiar, colher, recolher, acolher e tolher – verbos permeados pelas tramas sociais que demarcam os lugares de poder e exclusão presentes na produção das riquezas da cidade de Campinas. Para uns poucos a forma de produzir riqueza teceu privilégios de princesa, para muitos tramou apenas privações de escravizados. Ainda hoje há muito para ser desfiado nos acervos de museus e arquivos e nas celebrações oficiais das memórias da cidade que se vestiu para ser nomeada como Princesa do Oeste.Realizada em 23 de outubro de 2021. Somos o Peso Milenar da nossa Força Ancestral – Ritual de fechamento de primeiro ciclo da presença preta no Acervo do Museu da Cidade, carregando nos braços o peso da nossa força ancestral e assumindo a responsabilidade de manter viva a nossa presença, dos povos responsáveis por toda a produção das riquezas materiais e culturais, povos excluídos das honrarias de mérito. Andrea Mendes e Antônio Pulquerio. Realizada em 27 de novembro de 2021.
Ocupação escritas ocultadas – A paisagem que não Passa (2024) – intervenções: O legado da Princesa – Cortejo que questiona “quantas vidas produziram o legado da princesa?”, percorrendo ruas e monumentos que evidenciam as formas de ocultação dos saberes e conhecimentos negros, mas também destacam locais de resistência e afirmação da presença da matriz africana como produtora da riqueza que fez e continua a fazer o legado da “Princesa do Oeste”. Rua Treze de Maio, antiga rua São José, esquina com as escadarias da Catedral Metropolitana, cortejo termina no Monumento ao Bicentenário, celebrando a Princesa do Oeste e seu legado produzido por vidas negras.Realizado no dia 16 de julho de 2024. Embaixo do Chão – Largo em frente ao Fórum Municipal. Este espaço carrega a memória afetiva da ausência da Igreja do Rosário, símbolo da presença organizada das irmandades negras em Campinas. A igreja centenária e o cemitério que abrigava em seu solo foram apagados em 1956, eliminados da paisagem pela voracidade do capital imobiliário e seus planos imediatistas. .Realizado no dia 17 de julho de 2024. Tem preto no Museu – Área externa frontal ao Museu de Arte Contemporânea de Campinas e à Biblioteca Municipal Ernesto Manuel Zink. Arte Negra, coletivamente, se instala diante dos lugares oficialmente reconhecidos como centros do fazer artístico contemporâneo, para bradar sua presença potente na cidade, em contraposição à sua quase total ausência nas agendas dos museus e centros culturais. .Realizado no dia 19 de julho de 2024. Cortejo da Perseverança – O cortejo evoca a memória de Antônio Cesarino, Balbina Gomes da Graça, suas filhas, as Professoras Amância Ferreira Cesarino e Bernardina Gomes Cesarino, e seu bisneto Antônio Cesarino Junior. Casal Negro, Cesarino e Balbina, alfabetizados, fundaram a escola Perseverança em 10 de março de 1860. A escola funcionou até 1876 e foi uma das poucas instituições da época imperial dedicadas à alfabetização de negros. A memória desses educadores persiste em textos acadêmicos, mas onde mais podemos encontrar informações e referências sobre esta família de educadores negros na cidade? Realizado no dia 23 de julho de 2024. CorAção – Largo Santa Cruz (Largo da Forca) – Este local é marcado pela memória das punições, mutilações e mortes de escravizados ocorridas nos séculos XVIII e XIX, como o caso do jovem Elesbão, além da expulsão das comunidades negras que habitavam o antigo bairro Cambuí, resistindo aos processos de pauperização nos meados do século XX. A presença persistente da população em situação de rua, o apagamento cultural e o assassinato de vidas negras, principalmente jovens, são aspectos que compõem esta paisagem e que não diminuem, mas aumentam a cada hora. Realizado no dia 24 de julho de 2024. Dança da Alegria – Atual Praça Sylvia Simões Magro, onde se localizava o Campo da Alegria, como era conhecido no século XIX o então cemitério de escravizados. Mulheres negras artistas dançam, no dia da Mulher Negra Latina e Afro-caribenha, celebrando a vida e a resistência de seu povo. Realizado no dia 25 de julho de 2024 Ficha técnica: Artista: Andrea Mendes. Curadoria: Sônia Fardin. Artistas Convidados: Bruno dos Santos, Maraisa Rosa Sales, Raquel, Alessandro Oliveira, Rosa Sales, Thayara Magalhães, Joyce Nascimento, Ewerton Rodrigues, Poli Sales, Helen Aguiar, Thais Selva, Cecília Stelini, Ana Bia, Graciele Savio e Poli Sales. Produção e Mídias Sociais: Thiago Moreira e Letícia Rosa. Assessoria de Imprensa: Malu Borin. Fotografia: Fabiana Ribeiro. Filmagem: Carlos Tavares. Designer Gráfico: Thiago Moreira.
Contribuem para as performances os artistas convidados Bruno dos Santos, Maraisa Raquel, Alessandro Oliveira, Thayara Magalhães, Joyce Nascimento, Ewerton Rodrigues, Poli Santos, Helen Aguiar, Thais Selva, Cecília Stelini, Ana Bia, Graciele Savio e Marina Costa.





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